Siga o Blog por E-Mail.

terça-feira, 24 de março de 2020

Quarentena, o eu e o nós, o individual e o coletivo, o agora e o depois



Comecei a fazer esse texto em uma direção, quando percebi estava em outra, e não consegui mais ajustar. Já aconteceu isso comigo, mas nas outras vezes era o álcool que confundia, misturava, escancarava e apresentava uma “síntese misturada” de sentimentos e caminhos. Não vou tentar arrumar, acredito ele deva ser assim mesmo, desordenado, misturado, quem sabe no futuro ele não direcione novos rumos. A dúvida é se alguém termina ler um texto desse tamanho, mas vamos lá!

O Dia que Parte da Terrinha Parou

1977, mesmo ano que eu nasci, Raul Seixas lançava “O Dia Em Que a Terra Parou”, sucesso que sobrevive há décadas nas “paradas de sucesso” e hoje serve de reflexão sobre o impacto do Coronavírus em nossas vidas. Claro que existem várias diferenças entre a música e a realidade, primeiro que não é bem um sonho de um “Maluco Beleza” que vivemos, mas um pesadelo de uma sociedade que sofre as consequências do modo de produção que direciona nossas vidas.

A Terra tem parado aos poucos, quase que em um rodízio entre continentes, país, regiões, estados, cidades, tudo isso em um movimento articulado em base a estudos e formas de conhecimentos (científico ou não), não parou no mesmo dia, como em um sonho. Podemos dizer que na Parahyba começamos a “desacelerar mais rapidamente” na terça-feira, 17 de março, oito dias hoje (24/03/2020).

Igrejas, fiéis, alunos/as, professores/as, esses/as pararam, como na música. Por outro lado, muitos/as empregados/as, que não deveriam ir “pro seu trabalho”, seguem amontoados em call centers e fábricas que não terão para quem vender sua produção. Assim como o médico que, infelizmente, ainda tem muita “doença pra curar”, também precisaremos do padeiro e do soldado, que seguem na ativa.

A Terra não parou! Não podemos, nem vamos, parar 100%. Precisamos de saúde, alimentação, segurança, água, telecomunicações, luz, cultura e arte. A cada dia fica mais escancarado quem não nos deixa parar, quem nos suga até em tempos de pandemia, quem só pensa no lucro, na economia e não na vida.

Quero Compartilhar Minha 1ª Semana com Vocês

Não sou, não somos, uma ilha em meio a tudo isso. Na segunda-feira, 16 de março, estive com várias pessoas, além de ter tido três reuniões, sendo uma delas a do Diretório Estadual do PSOL que aprovou nota pública com sugestões para enfrentar o Coronavírus. No dia seguinte, como boa parte da capital da Paraíba, fui desacelerando, não saí de casa, fiquei sem saber por onde recomeçar, um pouco desnorteado, de férias, com congresso do PSOL cancelado, sem pessoas para encontrar, sem articulações políticas, sem encontros com as pessoas que gosto... Mas, aos poucos, fui conseguindo “olhar” os próximos meses e reiniciar a vida sob uma nova lógica organizativa.

Quarta-feira, entre 13h30 e 14h20, estive na Rádio Cruz das Armas e passei rapidamente na sede do Partido. Ao entrar em casa as roupas foram direto para “roupa suja”, lavei bem os braços e a barba e fui tomar um banho. No dia seguinte fui ao meu encontro com Pedro Faissal para entrar na quarentena lembrando de cuidar da mente, das emoções. No domingo fui comprar umas coisas para comer e beber. Sempre com os mesmos cuidados que já relatei antes.

Sexta, sábado, segunda e hoje (24 de março de 2020) eu não saí de casa. O que não significa que fiquei sem fazer nada, ao contrário, tenho estado muito mais ocupado que o “normal”, mas com uma vantagem, tenho Áurea Augusta ao meu lado, companheira com quem tenho aproveitado as boas horas do confinamento.

E Eu Com Isso? E Nós Com Isso?

No domingo, quando saí de carro para comprar umas coisas, chorei muito, não foi simples perceber que eu estava em nosso carro, com os vidros levantados, ar-condicionado ligado, indo comprar comida, e lembrar que muitos/as estão nas ruas, sem ter moradia, sem ter comida, sem saber sequer da existência do Coronavírus. Não é a primeira vez que choro com a desigualdade, seja sentindo as consequências na pele ou no peito, mas, por algum motivo, dessa vez foi diferente, não sei explicar o motivo.

Quando escutei o áudio de Franklin, companheiro de luta contra a desigualdade, lembrando que Pátria é Território, Soberania e Povo, não tinha como não partilhar do sentimento que ele descrevia, pois muitos/as estão despatriados/as dentro do próprio país, diante de tanta negativa de direitos.

Pior é saber que, por mais que cada um/a de nós façamos “nossa parte”, nossas ações nunca serão suficientes perto das necessidades coletivas. Claro, não vamos deixar de fazer nossa parte, vamos fazer cada vez mais, mas é fundamental aproveitar a forma como o Coronavírus vem escancarando as desigualdades sociais, descortinando quem se apropria da riqueza produzida pela força dos trabalhadores/as e, mesmo enriquecendo cada vez mais, trata os/as trabalhadores/as como descartáveis.

O Que Posso/Podemos Fazer?

O que cada um de nós temos feito em nossa privacidade para ajudar, ficará em nossa privacidade. Mas existem contribuições coletivas que cada um de nós podemos fazer e propagandear, seja para compartilhar conhecimento, seja para buscar conquistas coletivas, seja para denunciar o que precisa ser denunciado em tempos tão difíceis.

Fazia tempo que não fazíamos o Cuscuz com Debate, domingo fiz um com o médico Marcos Bosquiero sobre o Coronavírus, ajudou na prevenção, na união de pessoas, no alegrar e ocupar o dia de várias pessoas. Essa semana faremos um sobre “atividade física e quarentena”, medida simples que ajuda no coletivo, você com certeza pode ajudar com seu conhecimento.

Hoje separei algumas poesias que estavam “no fundo da gaveta”, muitas que sequer foram vistas para além dos meus olhos, uma exposição que pode alegrar ou incentivar alguém a escrever ou compartilhar sua arte. Poesia sempre toca alguma, lembro de uma minha que compartilhei um vez, foi um teste na verdade, eu não gostava dela, um amigo leu e ficou doido por ela, demorei acreditar que era verdade (rsrsrsrs). Podemos ajudar de várias formas.

A Luta de Classes Não Para?

Tem muito oportunista por aí, querendo lucrar com a dor. Dizendo que é hora de orar e não de bater panela. Muitos/as dizem isso de coração, mas outros como pura enganação, querendo lucrar com a dor, ganhar espaço político com o sofrimento, querendo fortalecer seu amigo empresário e fingindo ser solidariedade.

Alguns já estão testando “se cola” a suspensão das eleições. Claro, percebem que o bolsonarismo já começou a "descer ladeira", seus apoiadores/as despencam nas pesquisas e tentam usar da dor para suspender a democracia. Não podemos pestanejar, urgente defender nossa democracia.

Confesso que pensei em cancelar nossa primeira atividade coletiva de planejamento da nossa pré-campanha de vereador, mas, se assim fizéssemos, eram eles que ganhariam espaço, vamos manter nossa agenda e trabalhar em uma plataforma virtual que consiga juntar o maior número de pessoas que queiram fortalecer nossa democracia e construir uma alternativa coletiva para Câmara Municipal de João Pessoa.

Do Que Sinto Falta (além de abraçar familiares e amigos/as)?

Amo minha casa, amo a companhia da minha companheira, mas também amo a rua, ter contato com gente, conhecer o novo, isso eu sinto falta, estou já ligando para o 145 (só os fortes lembram). Disso eu sinto falta, rua e gente!

O que você vai fazer primeiro quando acabar nossa quarentena? Eu vou comprar uma cerveja no mercadinho perto de casa e andar pela rua conversando com as pessoas aqui perto, simples assim.

Será que alguém chegou até aqui? Ficou grande, eu sei, mas a vontade de escrever foi maior. Saudade de vocês! Ou nossa vitória é coletiva, ou não será!

terça-feira, 17 de março de 2020

Coronavírus, para Além do Lavar as Mãos, para Além do Indivíduo, uma Jornada Coletiva.


Não é com individualismo e segregação que teremos vitória, mas com solidariedade e trabalho coletivo.

Temos sido bombardeados/as com informações preventivas relacionadas ao Coronavírus, na TV, na internet, no rádio, mas o enfrentamento ao vírus deve garantir aspectos materiais, além de construir mecanismos de comunicação para alcançar setores da sociedade que ainda não sabem ou não tem como se proteger, sim, essas pessoas existem e são milhões.

Como combater um vírus tão potente com frotas de ônibus reduzidas, causando superlotação, uma integração lotada às 15h de uma segunda-feira, ônibus sujos e a população sem condições financeiras de comprar álcool em gel? A ampliação da frota e a limpeza dos ônibus, elementos já necessários há anos, agora é uma questão emergencial de enfrentamento ao Coronavírus.

Como combater o Coronavírus com corte nos recursos federais para saúde e com o desmonte do Sistema Único de Saúde? Defender o SUS e revogar a Emenda Constitucional que congelou gastos públicos por 20 anos, aprovada por Temer com o voto do Deputado Federal Jair Bolsonaro, é fundamental para reduzirmos os impactos do Coronavírus em nosso país.

Ainda é preciso refletir sobre o impacto econômico na vida do povo, não sobre como o mercado financeiro especula e tenta ganhar com a crise, mas um plano emergencial para garantir a população mais pobre meios de se prevenir e garantir sua sustentação material. É urgente pensar nas pessoas que vivem de eventos públicos que estão sendo cancelados como prevenção.

Não adianta deixarmos de ir ao teatro, a shows, a jogos de futebol e seguirmos jogados nas fábricas, nos órgãos públicos, nas escolas, nas faculdades, nos ônibus lotados. É importante pensar em quem recebe por serviço prestado ou trabalho intermitente. Salários não podem ser cortados e as pessoas ficarem sem proteção contra o vírus, a fome e suas contas. É urgente falar sobre isso e construir alternativas antes de atingirmos o momento crítico do Coronavírus em nosso país.

Até pouco tempo atrás não tínhamos população vivendo nas ruas de João Pessoa, hoje temos uma frágil política de assistência social que atenda essa população, a crise do Coronavírus pode ser o momento de ampliar essa política para além de uma questão emergencial.

As ocupações realizadas por pessoas que buscam moradia - diante da frágil política de habitação existente no país, na Paraíba, em João Pessoa e demais cidades – também não podem ser esquecidas, além dessas pessoas serem parte de um necessário plano emergencial, as políticas públicas de habitação precisam ser repensadas.

Vivemos uma das maiores crises hídricas da história, mas os gestores públicos se limitam (em sua maioria) a espera das chuvas e ao velho caminhão pipa. Sem água o vírus que enfrentamos ganha força, mais uma vez percebemos o quanto a não existência de políticas públicas - ou o desmonte das existentes - são as maiores brechas para crise do Coronavírus.

Precisamos ir para além do “lavar as mãos”, para além de individualizar a responsabilidade no enfrentamento ao Coronavírus, é preciso construir um plano emergencial para além das UTI´s, é preciso repensar a reestruturação das diferentes políticas públicas e enfrentar a política de desmonte imposta pelos defensores do Estado Mínimo que colocam em risco a vida de milhões de pessoas.

A desigualdade social é um caminho aberto para proliferação do vírus na Paraíba e em todo o mundo, estudiosos apontam que a atenção ao momento crítico do vírus é central para sociedade ganhar essa batalha, ampliar e remanejar recursos públicos nas diferentes Políticas Públicas, além de chamar a responsabilidade de gestores públicos e privados, é fundamental para superarmos esse difícil momento coletivo.

Não é com individualismo e segregação que teremos vitória, mas com solidariedade e trabalho coletivo. Seguem algumas sugestões para esse momento de crise.

  • Ampliação imediata das frotas de ônibus nas diferentes linhas do transporte público e higienização regular dos veículos.
  • Distribuição de álcool em gel para famílias cadastradas no CadÚnico, assim como fiscalização e punição aos comerciantes que tentem ganhar com atual crise ao aumentarem o preço do álcool e outras mercadorias de forma abusiva.
  • Revogação imediata da Emenda Constitucional nº 95 (congelamentos dos gastos públicos, inclusive para o Sistema Único de Saúde).
  • Cadastramento imediato dos/as trabalhadores/as ambulantes e garantia de renda nos moldes da renda recebida por pescadores/as no período de defeso. No mesmo molde essa renda deve ser garantida aos/as trabalhadores/as intermitentes que tiverem sua renda cortada devido a crise do Coronavírus.
  • Garantia do pagamento dos salários de servidores/as efetivos/as ou temporários/as, trabalhadores/as com carteira assinada e outros tipos de contratos de trabalho, em caso de suspensão das atividades devido a crise do Coronavírus.
  • Criação de Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua emergencial, com espaço para acolhimento no caso de famílias ou indivíduos que não tenham onde ficar, com foco na crise do Coronavírus.
  • Intensificar o trabalho preventivo presencial nas periferias e ocupações.
  • Garantir fornecimento de alimento e água nas periferias e ocupações que tenha mais dificuldade no período de crise do Coronavírus.


João Pessoa, 17 de março de 2020.


Tárcio Teixeira
Presidente do PSOL/PB

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Delírio, Desconhecimento ou Puro Oportunismo de Eliza Virgínia?


“Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem Messias de arma na mão”
(Luiz Carlos Máximo / Manu da Cuíca).


Mais uma vez ela, a Vereadora que não gosta do Cristo da Manjedoura, a Eliza Virgínia. Para alguns a parlamentar é a contradição em pessoa; para outros uma louca; ainda tem quem diga que ela seja uma fundamentalista conhecedora do que defende. Não a vejo como nenhuma das opções, mas como uma parlamentar de carreira que sabe o que faz, optou por um nicho eleitoral, “carregou nas tintas” com a força tomada por Bolsonaro, percebe a queda de popularidade do seu líder, especialmente em João Pessoa, e sabe que não será fácil fazer o caminho de volta para seu cantinho antes tido como certo na Câmara Municipal de João Pessoa.

A Parlamentar erra feio ao atacar o samba enredo da Mangueira, pois ao fazer isso ela ataca o Cristo da Manjedoura, ou não seria este o Cristo que no enredo diz: “Nasci de peito aberto, de punho cerrado / Meu pai carpinteiro, desempregado / Minha mãe é Maria das Dores Brasil”? O Cristo histórico é a cara do nosso povo, é a nossa cara!
Os/as compositores/as antecedem os ataques de Eliza, já sabiam que iriam “inventar mil pecados”, pelo visto não faz parte das orações da parlamentar calmar ao “Senhor, tenha piedade / Olhai para a terra / Veja quanta maldade”. Pois é, ser contra o “Jesus da gente” é não respeitar o “Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher”, algo que vemos regularmente nas declarações e propostas de Eliza Virgínia.
Quem é contra o Jesus que enxuga “o suor de quem desce e sobe ladeira”, contra o Jesus que se encontra “no amor que não encontra fronteira”, contra o Jesus que “Procura por mim nas fileiras contra a opressão”, não entendeu absolutamente nada sobre o amor de Cristo, sobre o amor incondicional. Quem é contra este Jesus é responsável por novamente cravejar seu corpo, são “Os profetas da intolerância / Sem saber que a esperança / Brilha mais na escuridão”.

No Carnaval, em todo Brasil, o que ouvimos foi o “O desabafo sincopado da cidade” e o “ressurgi pro cordão da liberdade”. Foi esse clamor das ruas que, diferente do ano passado, o bolsonarismo não conseguiu apagar chamando a atenção como fez com o “golden shower” em 2019.

Eliza, além de seguir seu líder e questionar o “Jesus da gente”, que somos o povo diverso e rico em nossa cultura, ela ameaça atacar a economia, quer impedir a destinação de recursos para o Carnaval, é não entender absolutamente nada sobre a cadeia produtiva da maior expressão da cultura popular brasileira, os milhões de empregos, de renda, de impostos, de alegria. Em contra partida a mesma parlamentar é defensora da liberação de impostos para as Igrejas, contradição? Não, puro oportunismo eleitoral!

Viva a Cultura Popular!

Viva o Carnaval!

Viva o “Jesus da Gente”!


A Verdade Vos Fará Livre (Samba-Enredo  da Mangueira. Composição: Luiz Carlos Máximo / Manu da Cuíca)

Senhor, tenha piedade
Olhai para a terra
Veja quanta maldade
Senhor, tenha piedade
Olhai para a terra
Veja quanta maldade
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra no buraco quente
Meu nome é Jesus da Gente
Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro, desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque, de novo, cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais na escuridão
Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão
Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E ressurgi pro cordão da liberdade
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra no buraco quente
Meu nome é Jesus da Gente
Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro, desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque, de novo, cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais na escuridão
Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão
Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E ressurgi pro cordão da liberdade
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Autismo! É pouco, mas é o que posso nesse mundão injusto!


Verdade, não sou nenhum estudioso do assunto, mas sou um militante social e, por ser um pouco conhecido, as pessoas chegam para pedir ajuda, em algumas situações uma simples orientação já é muito, em outras busco parcerias, mas existem momentos que demandam a boa e velha denúncia, atos de rua ou judicialização.

Sim, mas hoje quero falar sobre um tema que não sou conhecedor, o Autismo, mas associado a outro tema que conheço muito bem, a burocracia estatal, que dificulta o acesso a direitos, e o caos na saúde pública.

Hoje recebi uma ligação de uma mãe revoltada, e com infinitas razões para isso. Ela leu uma reportagem na página do Governo do Estado da Paraíba, datada de 27 de janeiro de 2020, com o título de “Governo da Paraíba emite Carteira de Identidade do Autismo”, mais revoltada ela ficou quando no começo do segundo parágrafo dizia que o “documento de identificação é emitido na hora da solicitação e é gratuito”.

O motivo da revolta com uma notícia aparentemente tão positiva? Essa mãe não teve acesso a carteira de seu filho, que, entre outras importantes garantias, será o censo do autismo no Brasil. A FUNAD exige laudo atualizado e que ele seja feito exclusivamente por médico do SUS, esse senhora soluçava, mas dizia com sua voz firme que “o Autismo não tem cura, para que laudo atualizado?”, dizia ainda: “pelo SUS serão vários meses para conseguir um laudo”.

Só tenho que concordar com essa mãe, trabalho na Promotoria da Saúde, vejo a negativa e a demora para o atendimento por diversas especialidades médicas na Gestão Municipal, mas não é justo o Governo do Estado, a FUNAD, jogar essa responsabilidade para prefeitura e negar a Identidade do filho de muitas mães por motivo tão mesquinho.

Espero que não venham com falsas justificativas técnicas, mas caso cheguem com elas, lembrem antes que não precisam criar falsas expectativas com propagandas midiáticas de que "fazem e acontecem", sem na prática atender essa e outras centenas de mães que querem fazer o filho existir no censo do Autismo.

O que fiz? Sugeri uma denúncia na Promotoria do Cidadão (para reivindicar a carteira de seu filho) e, caso precise da consulta de toda forma, na Promotoria da Saúde. Além disso, eu disse que faria esse texto e enviaria para pessoas que poderão tornar essa situação pública, ampliando o grito dessas famílias, mais que o encaminhamento técnico, ela gostou da força e apoio com essa posição política. É pouco, mas é o que posso nesse mundão injusto!

sábado, 4 de janeiro de 2020

Votos de 2020...

Como disse no vídeo da virada, vou disputar uma vaga para Câmara de João Pessoa, sou pré-candidato a Vereador e precisarei de vocês no período permitido pela legislação.


É uma disputa dura, onde em cada bairro, cada área de atuação, cada família, cada categoria, tem um candidat@, mas se é para virar o jogo, sua decisão precisará ser para além das questões corporativas ou pessoais, precisar ser programática.

Não terá virada se você for contra o crescente fascismo, sua retirada de direitos e ataque as diferenças, mas na hora do voto você escolher quem apoiou as ações do golpe de 2016 até aqui, quem silenciou, quem esteve ou estará com golpista, quem votou ou apoiou quem retirou direitos, quem assim fizer estará fortalecendo as bases que abriram espaço para o Golpe e o caos aberto em nosso país.

Um país não é construído de cima para baixo, mas de onde estão nossos pés, em nossas cidades. Vamos refletir as eleições municipais com mais cuidado e atenção.

Hora da Virada! São muit@s @s que estão em nosso campo de luta. Vamos construir mandatos coletivos, horizontais, de luta e transformação.



terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Minha experiência como professor do ensino fundamental.



Não, nunca fui professor do ensino fundamental, mas sou casado há 13 anos com uma professora linda e muito competente (Áurea). Em nossa jornada ouvi muitas histórias e participei de algumas atividades, na escola ou com amig@s professoras/es. Agora essa competente professora tem uma decisão difícil para tomar, assumir a vaga de professora conquistada em concurso público no Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba, Centro que este ano completou 40 anos, eu tinha 02 anos de idade e a professora que amo ainda nem sonhava em nascer.

Sabe aquelas provas que lemos nas redes sociais e as vezes demoramos para acreditar que elas são de verdade, pois é, são de verdade e já dei muitas risadas com as respostas que Áurea lia sem identificar @ estudante. Uma das respostas foi relacionada diretamente a criatividade para passar o conteúdo prático de atletismo, em uma rede de ensino sem as condições materiais para isso, a bola e o dardo para arremesso são apenas alguns dos muitos improvisos na educação básica. Na prova a pergunta era para citar tipos de arremessos existentes, a resposta: “arremesso de cabo de vassoura e de sacola plástica com papel”, eu não pensaria duas vezes, daria 10 (rsrsrsrs).

O carinho que ela recebe das crianças é outro aspecto muito especial dessa vida de professora, carinho que ela conquista com seu sorriso, acolhimento, conversa ou com uma “chamada” dura para ensinar não só o conteúdo de educação física, mas sobre a vida.

Claro, na escola também existem as durezas da vida, os casos de violência doméstica, as dificuldades materiais e/ou a violência presente na rua, elementos duros que fazem parte também da minha vida profissional como assistente social. Além dos sorrisos, as lágrimas também fazem parte da caminhada.

Esses dias, indo comprar duas cervejas no mercadinho, lembrei dessas histórias e chorei, e olhe que não fui eu o aprovado para lecionar na UFPB e preciso decidir sobre os próximos passos da minha vida.

Sei que a Educação Básica vai perder uma excelente professora, mas também sei da competência de outros/as que ficam e fazem a educação em João Pessoa, mesmo com todas as dificuldades impostas pela gestão municipal. O município perde uma doutora, mas ficam outras doutoras, mestres, especialistas e competentes graduadas/os. Ganha a UFPB uma grande professora, uma defensora da educação pública, gratuita, laica e de qualidade.

Força na jornada, companheira. A vida gira e sei da sua competência para aprumar o giro sempre que necessário. Te amo!

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Ditadura, Dados Históricos e Minhas Memórias!



Nunca é tarde para relembrar a história, era Ditadura Militar: a fome era marca do período, em 1975 alcançávamos o número de 72 milhões de desnutridos/as, éramos 107 milhões de brasileiros/as; não existia educação para todos/as, o analfabetismo estava em 32,9% (1970); não tínhamos saúde descentralizada, PSF, UPA, nada disso existia, o que tínhamos eram 90 crianças mortas a cada 1000 nascidas vivas (1973), para ter uma base comparativa, em 2016, quando esse número voltou a crescer, eram 14 mortes a cada 1000; entre 1970 e 1974, em plena Ditadura Militar, o Banco Nacional de Habitação funcionou apenas como fonte de financiamento de moradia e obras de infraestrutura, a falta de uma política de habitacional, em um dos períodos de intensa transferência da população do meio rural para o urbana, foi responsável pela expansão e consolidação das moradias precárias nos formatos conhecidos como favelas e palafitas; a dívida externa brasileira cresceu 32 vezes com a ditadura militar, em 1985 totalizava mais de 105 bilhões de dólares.

Vivi as consequências da ditadura militar, nasci em 1977, no sertão do Ceará, não tive que aprender a ler escondido com um pedaço de pau na mão, como minha avó, mas vi comerciantes venderem a merenda escolar na bodega da frente da escola onde eu estudava, apesar do enorme carimbo de proibida venda, quem iria denunciar em tempos de chumbo? Vivi ainda a inflação galopante da primeira metade dos anos 1980, seja nas feiras em Recife, para onde fomos levados por nossa mãe em busca de melhores condições vida (movimento de muitos/as de nós nordestinos), seja novamente no sertão, em Mombaça, onde eu ia vender os deliciosos pães que minha mãe fazia nos escritórios perto de casa. Do mesmo período lembro das vezes que entrei na fila da merenda para pegar o lanche e repassar para os coleguinhas que não tinham em casa a comida que eu tinha, passamos dificuldades, eu sei, mas a dor da fome não lembro de ter passado, sei que não esqueceria.

A descrição anterior é apenas um pedacinho da precária realidade brasileira dos anos da ditadura militar que por um bom tempo impôs sua estória (com “e” mesmo) por meio das ameaças, das perseguições, da força, da tortura, da morte, sendo o Ato Institucional nº 5 o mecanismo usado para supostamente legalizar seus crimes. O mesmo AI5 que defende Guedes e a família Bolsonaro.

Não cheguei até aqui para baixar a cabeça, não cheguei até aqui para calar, não chegamos até aqui para ficarmos acovardados e retornar para clandestinidade, se Bolsonaro quer o AI5, que vá Ao Inferno 5 vezes e na quinta fique por lá. Quem não leu o AI5, abaixo vão alguns pontos do que representou esse crime histórico da ditadura militar.

Nenhum passo atrás.
Tárcio Teixeira
Trabalhador Brasileiro

ATO INSTITUCIONAL nº 5 (13 de dezembro de 1968)

1.      Fechamento do Congresso Nacional e centralização do poder - “O Presidente da República poderá decretar o recesso do Congresso Nacional, das Assembléias Legislativas e das Câmaras de Vereadores, por Ato Complementar, em estado de sitio ou fora dele, só voltando os mesmos a funcionar quando convocados pelo Presidente da República”.
2.      Intervenção nos Estados e Municípios - “O Presidente da República, no interesse nacional, poderá decretar a intervenção nos Estados e Municípios, sem as limitações previstas na Constituição”.
3.      Suspender Direitos Políticos e Cassar Mandatos Escolhidos pelo Povo - “No interesse de preservar a Revolução, o Presidente da República, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e sem as limitações previstas na Constituição, poderá suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais”.
4.      Desmonte do Judiciário, Ministério Público e Serviço Público - “Ficam suspensas as garantias constitucionais ou legais de: vitaliciedade, inamovibilidade e estabilidade, bem como a de exercício em funções por prazo certo”.
5.      Fim do habeas corpus (legaliza o abuso de autoridade) - “Fica suspensa a garantia de habeas corpus, nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular".
6.      Fim da Justiça - "Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este Ato institucional e seus Atos Complementares, bem como os respectivos efeitos".