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terça-feira, 24 de março de 2020

Quarentena, o eu e o nós, o individual e o coletivo, o agora e o depois



Comecei a fazer esse texto em uma direção, quando percebi estava em outra, e não consegui mais ajustar. Já aconteceu isso comigo, mas nas outras vezes era o álcool que confundia, misturava, escancarava e apresentava uma “síntese misturada” de sentimentos e caminhos. Não vou tentar arrumar, acredito ele deva ser assim mesmo, desordenado, misturado, quem sabe no futuro ele não direcione novos rumos. A dúvida é se alguém termina ler um texto desse tamanho, mas vamos lá!

O Dia que Parte da Terrinha Parou

1977, mesmo ano que eu nasci, Raul Seixas lançava “O Dia Em Que a Terra Parou”, sucesso que sobrevive há décadas nas “paradas de sucesso” e hoje serve de reflexão sobre o impacto do Coronavírus em nossas vidas. Claro que existem várias diferenças entre a música e a realidade, primeiro que não é bem um sonho de um “Maluco Beleza” que vivemos, mas um pesadelo de uma sociedade que sofre as consequências do modo de produção que direciona nossas vidas.

A Terra tem parado aos poucos, quase que em um rodízio entre continentes, país, regiões, estados, cidades, tudo isso em um movimento articulado em base a estudos e formas de conhecimentos (científico ou não), não parou no mesmo dia, como em um sonho. Podemos dizer que na Parahyba começamos a “desacelerar mais rapidamente” na terça-feira, 17 de março, oito dias hoje (24/03/2020).

Igrejas, fiéis, alunos/as, professores/as, esses/as pararam, como na música. Por outro lado, muitos/as empregados/as, que não deveriam ir “pro seu trabalho”, seguem amontoados em call centers e fábricas que não terão para quem vender sua produção. Assim como o médico que, infelizmente, ainda tem muita “doença pra curar”, também precisaremos do padeiro e do soldado, que seguem na ativa.

A Terra não parou! Não podemos, nem vamos, parar 100%. Precisamos de saúde, alimentação, segurança, água, telecomunicações, luz, cultura e arte. A cada dia fica mais escancarado quem não nos deixa parar, quem nos suga até em tempos de pandemia, quem só pensa no lucro, na economia e não na vida.

Quero Compartilhar Minha 1ª Semana com Vocês

Não sou, não somos, uma ilha em meio a tudo isso. Na segunda-feira, 16 de março, estive com várias pessoas, além de ter tido três reuniões, sendo uma delas a do Diretório Estadual do PSOL que aprovou nota pública com sugestões para enfrentar o Coronavírus. No dia seguinte, como boa parte da capital da Paraíba, fui desacelerando, não saí de casa, fiquei sem saber por onde recomeçar, um pouco desnorteado, de férias, com congresso do PSOL cancelado, sem pessoas para encontrar, sem articulações políticas, sem encontros com as pessoas que gosto... Mas, aos poucos, fui conseguindo “olhar” os próximos meses e reiniciar a vida sob uma nova lógica organizativa.

Quarta-feira, entre 13h30 e 14h20, estive na Rádio Cruz das Armas e passei rapidamente na sede do Partido. Ao entrar em casa as roupas foram direto para “roupa suja”, lavei bem os braços e a barba e fui tomar um banho. No dia seguinte fui ao meu encontro com Pedro Faissal para entrar na quarentena lembrando de cuidar da mente, das emoções. No domingo fui comprar umas coisas para comer e beber. Sempre com os mesmos cuidados que já relatei antes.

Sexta, sábado, segunda e hoje (24 de março de 2020) eu não saí de casa. O que não significa que fiquei sem fazer nada, ao contrário, tenho estado muito mais ocupado que o “normal”, mas com uma vantagem, tenho Áurea Augusta ao meu lado, companheira com quem tenho aproveitado as boas horas do confinamento.

E Eu Com Isso? E Nós Com Isso?

No domingo, quando saí de carro para comprar umas coisas, chorei muito, não foi simples perceber que eu estava em nosso carro, com os vidros levantados, ar-condicionado ligado, indo comprar comida, e lembrar que muitos/as estão nas ruas, sem ter moradia, sem ter comida, sem saber sequer da existência do Coronavírus. Não é a primeira vez que choro com a desigualdade, seja sentindo as consequências na pele ou no peito, mas, por algum motivo, dessa vez foi diferente, não sei explicar o motivo.

Quando escutei o áudio de Franklin, companheiro de luta contra a desigualdade, lembrando que Pátria é Território, Soberania e Povo, não tinha como não partilhar do sentimento que ele descrevia, pois muitos/as estão despatriados/as dentro do próprio país, diante de tanta negativa de direitos.

Pior é saber que, por mais que cada um/a de nós façamos “nossa parte”, nossas ações nunca serão suficientes perto das necessidades coletivas. Claro, não vamos deixar de fazer nossa parte, vamos fazer cada vez mais, mas é fundamental aproveitar a forma como o Coronavírus vem escancarando as desigualdades sociais, descortinando quem se apropria da riqueza produzida pela força dos trabalhadores/as e, mesmo enriquecendo cada vez mais, trata os/as trabalhadores/as como descartáveis.

O Que Posso/Podemos Fazer?

O que cada um de nós temos feito em nossa privacidade para ajudar, ficará em nossa privacidade. Mas existem contribuições coletivas que cada um de nós podemos fazer e propagandear, seja para compartilhar conhecimento, seja para buscar conquistas coletivas, seja para denunciar o que precisa ser denunciado em tempos tão difíceis.

Fazia tempo que não fazíamos o Cuscuz com Debate, domingo fiz um com o médico Marcos Bosquiero sobre o Coronavírus, ajudou na prevenção, na união de pessoas, no alegrar e ocupar o dia de várias pessoas. Essa semana faremos um sobre “atividade física e quarentena”, medida simples que ajuda no coletivo, você com certeza pode ajudar com seu conhecimento.

Hoje separei algumas poesias que estavam “no fundo da gaveta”, muitas que sequer foram vistas para além dos meus olhos, uma exposição que pode alegrar ou incentivar alguém a escrever ou compartilhar sua arte. Poesia sempre toca alguma, lembro de uma minha que compartilhei um vez, foi um teste na verdade, eu não gostava dela, um amigo leu e ficou doido por ela, demorei acreditar que era verdade (rsrsrsrs). Podemos ajudar de várias formas.

A Luta de Classes Não Para?

Tem muito oportunista por aí, querendo lucrar com a dor. Dizendo que é hora de orar e não de bater panela. Muitos/as dizem isso de coração, mas outros como pura enganação, querendo lucrar com a dor, ganhar espaço político com o sofrimento, querendo fortalecer seu amigo empresário e fingindo ser solidariedade.

Alguns já estão testando “se cola” a suspensão das eleições. Claro, percebem que o bolsonarismo já começou a "descer ladeira", seus apoiadores/as despencam nas pesquisas e tentam usar da dor para suspender a democracia. Não podemos pestanejar, urgente defender nossa democracia.

Confesso que pensei em cancelar nossa primeira atividade coletiva de planejamento da nossa pré-campanha de vereador, mas, se assim fizéssemos, eram eles que ganhariam espaço, vamos manter nossa agenda e trabalhar em uma plataforma virtual que consiga juntar o maior número de pessoas que queiram fortalecer nossa democracia e construir uma alternativa coletiva para Câmara Municipal de João Pessoa.

Do Que Sinto Falta (além de abraçar familiares e amigos/as)?

Amo minha casa, amo a companhia da minha companheira, mas também amo a rua, ter contato com gente, conhecer o novo, isso eu sinto falta, estou já ligando para o 145 (só os fortes lembram). Disso eu sinto falta, rua e gente!

O que você vai fazer primeiro quando acabar nossa quarentena? Eu vou comprar uma cerveja no mercadinho perto de casa e andar pela rua conversando com as pessoas aqui perto, simples assim.

Será que alguém chegou até aqui? Ficou grande, eu sei, mas a vontade de escrever foi maior. Saudade de vocês! Ou nossa vitória é coletiva, ou não será!

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