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quinta-feira, 21 de março de 2013


Lembranças da Infância e um Pouco Sobre o Coletivo Aguaceira

Nas primeiras ações da caravana do Coletivo Aguaceira no sertão paraibano (depois falo melhor sobre o Coletivo) tivemos a oportunidade de dormir no Sítio Tijipio, em São Mamede; eu não poderia perder a oportunidade deitar no alpendre para curtir o céu estrelado que só temos em nosso sertão. O sono foi interrompido quando o friozinho do chão de cimento e a brisa da madrugada começaram a ceder espaço ao Senhor Sol que acordava todos/as os/as artistas e representantes de entidades que ali estavam. Não tive tempo de ficar irritado com a forma de ser acordado, um cheiro de infância logo levou minha mente aos braços do meu avô, “Seu Valdemar”. As vacas estavam sendo ordenhadas no curral que tinha início já com a parede dos fundos da casa da companheira Ausenir; o galo cantava insistentemente enquanto as galinhas ciscavam no terreiro e os/as artistas do Aguaceira já faziam música.

Foi uma manhã encantadora, fiquei por alguns minutos parado na frente da casa, apenas curtindo a caatinga com o frágil verde decorrente da estiagem atualmente vivida no semiárido. Minhas raízes de sertanejo sempre acompanham meus passos entre estiagens, farturas e racionamentos, sejam eles no coração, na profissão, na militância... A volta por cima e a política de armazenamento são fundamentais para garantir a fortaleza dos momentos de estiagem.

Mesmo não conseguindo fechar o pensamento anterior, vou falar um pouco do Aguaceira, mas antes quero informar que - após nossa saída - a chuva caiu no Sítio Tijipio e o verde da nossa caatinga muito breve estará mais intenso.


Coletivo Aguaceira

O Coletivo Aguaceira começou com a ideia de alguns artistas paraibanos que não conseguiam ficar inertes diante da calamidade que atinge nosso sertão com o longo período de estiagem e a falta de políticas públicas estruturantes para região. Nas primeiras reuniões do Aguaceira tive a oportunidade de conhecer Adeido Vieira, Escurinho, Glaucia Lima e Pertinaz, artistas do grupo que estiveram nas articulações com as Entidades Sindicais e Conselhos de Classe, entre eles o Conselho Regional de Serviço Social da Paraíba, que aderiram ao Coletivo e passaram a contribuir com as - já vitoriosas - ações do Aguaceira.

Entre as ações realizadas e planejadas estão as visitas aos municípios, sessões especial nas Câmaras dos Vereadores, debates nas Universidades, Ato Público e Show com artistas paraibanos/as. São muitos os objetivos do Coletivo, dos quais eu destacaria: 1. garantir visibilidade aos problemas sofridos pela população do semiárido e aos reais motivos que levam parte da população a confundir “conviver com a seca” com “sofrer com a estiagem”; 2. coletar denúncias relacionadas ao acesso a água; 3. apresentar propostas de políticas públicas para o semiárido; 4. mobilizar a sociedade; e 5. elaborar documento técnico/político resultantes das ações do Coletivo Aguaceira, encaminhar aos órgão competentes e monitorar os desdobramentos daí decorrentes.

A seca é um fenômeno político resultante das ações históricas de aparelhamento político/financeiro por parte de uma minoria em detrimento das mais de 22 milhões de pessoas que vivem no semiárido brasileiro; na Paraíba são aproximadamente 2 milhões de pessoas (1.966.713) vivendo nos 170 municípios que compõem o semiárido.

A estiagem é um fenômeno natural presente na região do semiárido, o que não significa dizer que o povo precise necessariamente sofrer durante o período sem chuva. O semiárido brasileiro é o que mais chove no mundo, a questão central é que não se promovem políticas públicas permanentes e eficientes de produção e armazenamento de água, ração animal e alimento para povo. Não por acaso percebe-se, mesmo em momentos de longas estiagens, os latifundiários e o agronegócio com suas terras verdes e produzindo, enquanto os pequenos agricultores passam por dificuldades e o gado morre.

O Brasil exporta tecnologia de convício com a estiagem no semiárido, elas existem e são mais baratas que as grandes obras que garantem a entrada das empreiteiras na “jogada”. Não preciso dizer para vocês porque esse ciclo político vicioso segue por décadas, mas gostaria de trazer a campanha do Conjunto CFESS/CRESS para afirmar que “Sem Movimento Não Há Liberdade”.

O Coletivo Aguaceira já visitou Patos, Cajazeiras, Sumé e Campina Grande; na próxima semana (26/03) visitará Areia e no início de abril (03/04) apresentará o resultado dessa importante caravana.

Patos foi a primeira cidade a ser visitada, além dos debates realizados, o show do Aguaceira foi um verdadeiro sucesso (assim como nos demais municípios), dialogando e mobilizando a juventude que curtiu ritmos como: Ciranda, Rock, Coco, Rap, Forró, Samba, Boi... Além dos/as grandes artistas que eu já conhecia das reuniões do Aguaceira, pude conhecer Tiago Moura, Junior Targino, Patativa Moog, todos/as instrumentistas e vocais no show do Coletivo, e os instrumentistas Jorge, George e Marcelo; a qualidade desses/as companheiros/as é indiscutível, além de serem pessoas massa e guerreiras da luta por direitos.

Em Cajazeiras surgiram denúncias de que a ração animal, tão propagandeada pelo Governo Estadual, chegou aos produtores apenas cinco meses após o gado começar a morrer; ainda nessa cidade, o MST denunciou que a água do Açude de Coremas está sendo destinada ao agronegócio instalado nas Várzeas de Sousa para produção de ração (para exportação), enquanto ao lado a falda de água castiga o pequeno agricultor e os animais.

Sumé foi outra cidade onde as denúncias versam sobre a má distribuição da água. Segundo moradores, o açude gerenciado pelo DENOCS liberou água apenas para 10 das 47 comunidades rurais da região, tudo indica que a água era represada pelos maiores proprietários de terra e políticos da região. Ainda nesse município, tomamos conhecimento que uma adutora da CAGEPA desperdiça água há mais de cinco meses na comunidade Olho D’água, não tendo nenhum chafariz na região ou outra forma de aproveitamento dessa água; por outro lado, uma comunidade vizinha tem uma estrutura de chafariz já instalada e a água não chega.

Ao chegarmos em Campina Grande os trabalhos iniciaram com a realização de uma Sessão Especial na Câmara dos Vereadores, como encaminhamento deliberou-se que as denúncias apresentadas serão encaminhadas ao Ministério Público da Paraíba e outros órgãos e gestores públicos.

Venha fazer parte do Coletivo Aguaceira. Leia nosso manifesto (anexo), siga o Aguaceira no twitter (@aguaceira) e facebook, participe das próximas atividades e venha fazer parte dessa jornada.


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