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quinta-feira, 21 de março de 2013


Lembranças da Infância e um Pouco Sobre o Coletivo Aguaceira

Nas primeiras ações da caravana do Coletivo Aguaceira no sertão paraibano (depois falo melhor sobre o Coletivo) tivemos a oportunidade de dormir no Sítio Tijipio, em São Mamede; eu não poderia perder a oportunidade deitar no alpendre para curtir o céu estrelado que só temos em nosso sertão. O sono foi interrompido quando o friozinho do chão de cimento e a brisa da madrugada começaram a ceder espaço ao Senhor Sol que acordava todos/as os/as artistas e representantes de entidades que ali estavam. Não tive tempo de ficar irritado com a forma de ser acordado, um cheiro de infância logo levou minha mente aos braços do meu avô, “Seu Valdemar”. As vacas estavam sendo ordenhadas no curral que tinha início já com a parede dos fundos da casa da companheira Ausenir; o galo cantava insistentemente enquanto as galinhas ciscavam no terreiro e os/as artistas do Aguaceira já faziam música.

Foi uma manhã encantadora, fiquei por alguns minutos parado na frente da casa, apenas curtindo a caatinga com o frágil verde decorrente da estiagem atualmente vivida no semiárido. Minhas raízes de sertanejo sempre acompanham meus passos entre estiagens, farturas e racionamentos, sejam eles no coração, na profissão, na militância... A volta por cima e a política de armazenamento são fundamentais para garantir a fortaleza dos momentos de estiagem.

Mesmo não conseguindo fechar o pensamento anterior, vou falar um pouco do Aguaceira, mas antes quero informar que - após nossa saída - a chuva caiu no Sítio Tijipio e o verde da nossa caatinga muito breve estará mais intenso.


Coletivo Aguaceira

O Coletivo Aguaceira começou com a ideia de alguns artistas paraibanos que não conseguiam ficar inertes diante da calamidade que atinge nosso sertão com o longo período de estiagem e a falta de políticas públicas estruturantes para região. Nas primeiras reuniões do Aguaceira tive a oportunidade de conhecer Adeido Vieira, Escurinho, Glaucia Lima e Pertinaz, artistas do grupo que estiveram nas articulações com as Entidades Sindicais e Conselhos de Classe, entre eles o Conselho Regional de Serviço Social da Paraíba, que aderiram ao Coletivo e passaram a contribuir com as - já vitoriosas - ações do Aguaceira.

Entre as ações realizadas e planejadas estão as visitas aos municípios, sessões especial nas Câmaras dos Vereadores, debates nas Universidades, Ato Público e Show com artistas paraibanos/as. São muitos os objetivos do Coletivo, dos quais eu destacaria: 1. garantir visibilidade aos problemas sofridos pela população do semiárido e aos reais motivos que levam parte da população a confundir “conviver com a seca” com “sofrer com a estiagem”; 2. coletar denúncias relacionadas ao acesso a água; 3. apresentar propostas de políticas públicas para o semiárido; 4. mobilizar a sociedade; e 5. elaborar documento técnico/político resultantes das ações do Coletivo Aguaceira, encaminhar aos órgão competentes e monitorar os desdobramentos daí decorrentes.

A seca é um fenômeno político resultante das ações históricas de aparelhamento político/financeiro por parte de uma minoria em detrimento das mais de 22 milhões de pessoas que vivem no semiárido brasileiro; na Paraíba são aproximadamente 2 milhões de pessoas (1.966.713) vivendo nos 170 municípios que compõem o semiárido.

A estiagem é um fenômeno natural presente na região do semiárido, o que não significa dizer que o povo precise necessariamente sofrer durante o período sem chuva. O semiárido brasileiro é o que mais chove no mundo, a questão central é que não se promovem políticas públicas permanentes e eficientes de produção e armazenamento de água, ração animal e alimento para povo. Não por acaso percebe-se, mesmo em momentos de longas estiagens, os latifundiários e o agronegócio com suas terras verdes e produzindo, enquanto os pequenos agricultores passam por dificuldades e o gado morre.

O Brasil exporta tecnologia de convício com a estiagem no semiárido, elas existem e são mais baratas que as grandes obras que garantem a entrada das empreiteiras na “jogada”. Não preciso dizer para vocês porque esse ciclo político vicioso segue por décadas, mas gostaria de trazer a campanha do Conjunto CFESS/CRESS para afirmar que “Sem Movimento Não Há Liberdade”.

O Coletivo Aguaceira já visitou Patos, Cajazeiras, Sumé e Campina Grande; na próxima semana (26/03) visitará Areia e no início de abril (03/04) apresentará o resultado dessa importante caravana.

Patos foi a primeira cidade a ser visitada, além dos debates realizados, o show do Aguaceira foi um verdadeiro sucesso (assim como nos demais municípios), dialogando e mobilizando a juventude que curtiu ritmos como: Ciranda, Rock, Coco, Rap, Forró, Samba, Boi... Além dos/as grandes artistas que eu já conhecia das reuniões do Aguaceira, pude conhecer Tiago Moura, Junior Targino, Patativa Moog, todos/as instrumentistas e vocais no show do Coletivo, e os instrumentistas Jorge, George e Marcelo; a qualidade desses/as companheiros/as é indiscutível, além de serem pessoas massa e guerreiras da luta por direitos.

Em Cajazeiras surgiram denúncias de que a ração animal, tão propagandeada pelo Governo Estadual, chegou aos produtores apenas cinco meses após o gado começar a morrer; ainda nessa cidade, o MST denunciou que a água do Açude de Coremas está sendo destinada ao agronegócio instalado nas Várzeas de Sousa para produção de ração (para exportação), enquanto ao lado a falda de água castiga o pequeno agricultor e os animais.

Sumé foi outra cidade onde as denúncias versam sobre a má distribuição da água. Segundo moradores, o açude gerenciado pelo DENOCS liberou água apenas para 10 das 47 comunidades rurais da região, tudo indica que a água era represada pelos maiores proprietários de terra e políticos da região. Ainda nesse município, tomamos conhecimento que uma adutora da CAGEPA desperdiça água há mais de cinco meses na comunidade Olho D’água, não tendo nenhum chafariz na região ou outra forma de aproveitamento dessa água; por outro lado, uma comunidade vizinha tem uma estrutura de chafariz já instalada e a água não chega.

Ao chegarmos em Campina Grande os trabalhos iniciaram com a realização de uma Sessão Especial na Câmara dos Vereadores, como encaminhamento deliberou-se que as denúncias apresentadas serão encaminhadas ao Ministério Público da Paraíba e outros órgãos e gestores públicos.

Venha fazer parte do Coletivo Aguaceira. Leia nosso manifesto (anexo), siga o Aguaceira no twitter (@aguaceira) e facebook, participe das próximas atividades e venha fazer parte dessa jornada.


Abaixo-assinado Todo Apoio a Bia Abramides - Contra perseguição política na PUC-SP

Abaixo-assinado Todo Apoio a Bia Abramides - Contra perseguição política na PUC-SP

quinta-feira, 14 de março de 2013

Ato Nacional - Fora Marcos Feliciano.

SÁBADO O BRASIL VAI OUVIR A VOZ E A INDIGNAÇÃO DO NOSSO POVO!

Todos/as nas ruas em defesa dos Direitos Humanos.




ATO EM DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS
                    SÁBADO 16.03, 10H, NA LAGOA

Nós, militantes dos Direitos Humanos do Estado da Paraíba, negras/os, LGBT, mulheres, estudantes, pessoas vivendo com HIV/Aids, ciganos, quilombolas, indígenas,  religiões de matriz africana, profissionais do sexo, pessoas com deficiência, vimos de público repudiar a eleição do deputado federal Marco Feliciano (PSC/SP) para a Presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, por entender que suas declarações ferem os princípios da laicidade do Estado Republicano e vão de encontro a Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Constituição Federal, reforçando e estimulando preconceitos e a intolerância contra grupos sociais, raciais e sexuais historicamente discriminados e marginalizados.

Defendemos o direito à liberdade de expressão, de credo religioso, de orientação sexual, de identidade/igualdade de gênero, de raça e a luta por uma sociedade igualitária, não homofóbica, não racista e não sexista, que só serão garantidos dentro de um Estado Laico.

Como um parlamentar com este perfil, pode garantir que esta Comissão defenderá os direitos que o mesmo está violando? Como uma liderança religiosa oriunda de uma crença que prega a igualdade e a tolerância, se expressa de forma contrária à fundamentação deste credo religioso?

Exigimos que o Poder Legislativo reverta essa situação, destituindo o Deputado Feliciano desta Comissão, sob risco de, ao dificultar a defesa dos direitos humanos, comprometer o desenvolvimento do nosso Estado Democrático de Direito e frustrar a expectativa que toda a sociedade brasileira deposita nesta Instituição. 

Conclamamos a sociedade de um modo geral, a cada um e cada uma que se sente ofendido/a e violado/a em seus direitos a se somar a nós nesta luta.
                              
ESTADO LAICO, DIREITOS HUMANOS GARANTIDOS!

MEL - Movimento do Espírito Lilás, CUNHÃ - Coletivo Feminista, AMB - Articulação de Mulheres Brasileiras, Marcha Mundial de Mulheres, Centro de Cultura Afro Brasileira Omidewa, Centro de Direitos Humanos da UFPB, Articulação de Juventude Negra da Paraíba, Ateliê Multi Cultural Elionais Gomes, UMB/PB - União Brasileira de Mulheres, Coletivo Desintoca, Consulta Popular, Frente Feminista, NEP - Flor de Mandacaru, ALPP - Associação de Livres Pensadores da Paraíba, CEDHOR - Centro Dom Oscar Romero, CEDH, AP - Assembleia Popular, Comissão de Direitos Humanos da OAB, Comissão de Direito Homoafetivo e da Diversidade Sexual da OAB, SINTEENP, CRESS Conselho Regional de Serviço Social 13ª Região- Paraíba, ICM - Igreja Metropolitana, PMJP/Coordenadoria Municipal de Promoção a Cidadania LGBT e da Igualdade Racial, NDU UFPB - Núcleo de Direitos Humanos da UPFB, Movimento Negro Organizado da Paraíba, Bamidelê - Organização de Mulheres Negras/OMN, FOPPIR - Fórum Paraibano pela Igualdade Racial, Rede de Mulheres de Terreiro, FICAB, Federação dos Cultos Afros Brasileiros, FEPUMCANJU, Ilê Tata do Axé, Setorial de Combate ao Racismo do PT/PB, Setorial LGBT do PT/PB, Comissão setorial Municipal de Mulheres do PT/PB, PSOL, Setorial de Direitos Humanos do PV, ASTRANS-PB - Associação de Mulheres Trans da Paraíba, SOS Mata Atlântica, APAN, Sindicato das Domésticas de João Pessoa, APAE.

quinta-feira, 7 de março de 2013

O que ?



Meninas brincam de boneca

Meninos jogam futebol

Moças lavam os pratos

Garotos pagam as contas

Mulheres cuidam da casa

Homens saem de casa

Quem inventou essa porra?



(Tárcio Teixeira-  deu vontade de compartilhar essas antigas linhas com as mulheres que lutam)

terça-feira, 5 de março de 2013

Executiva Nacional do PSOL - Aberto debate eleitoral e suspensos seguidores/as de Marina.




Segue Resoluções da Executiva Nacional do PSOL.


1. Resolução sobre membros do PSOL que estão engajados na construção do partido Rede Sustentabilidade

Foi aprovada por unanimidade a seguinte resolução política:
Resolução da Executiva Nacional

Diante dos fatos envolvendo a participação de filiados do Partido Socialismo e Liberdade na construção do novo partido “Rede Sustentabilidade”, a Executiva Nacional decide pela suspensão preventiva de todas e todos aqueles que estiverem comprovadamente engajados com a construção de outros instrumentos político-partidários, sobretudo em espaços de direção, conforme prevê o item III do artigo 13 do Estatuto do PSOL.

Esta decisão não suspende os direitos de defesa e deve ser referendada pelo Diretório Nacional. Em respeito ao Estatuto do partido e em nome da coerência, esses militantes deveriam desligar-se do partido.

Nas poucas instâncias estaduais e municipais onde for necessário, caberá aos dirigentes remanescentes a recomposição dos espaços de direção com o acompanhamento da Executiva Nacional.


2. Resolução sobre a conjuntura nacional e internacional

Após o debate foi aprovada por nove votos favoráveis, seis abstenções e um voto contrário a seguinte Resolução de conjuntura:

PSOL: alternativa programática, de esquerda e socialista!

1-                      O ano de 2013 começa com as incertezas da crise econômica. Na Europa, mais fortemente atingida pela recessão, não há saídas à vista para os segmentos assalariados enquanto prevalecer à lógica que a troika – União Europeia, Banco Central Europeu e FMI – vêm impondo aos governos conservadores do velho continente. As perspectivas são de que o crescimento da economia mundial não deve ultrapassar os 2,5% (mesma expectativa de crescimento da economia dos EUA), enquanto a China deve repetir o crescimento de 7%, impactando fortemente a economia brasileira (que dificilmente alcançará um patamar superior aos 3,5%) e demais países primário-exportadores.

2.           Enquanto se intensifica o aporte de recursos públicos no socorro aos grandes bancos privados, o desemprego continua em patamares muito acima daqueles considerados normais e a desigualdade e a pobreza cresceram muito nos países do capitalismo central. Essa realidade mantém os trabalhadores mobilizados contra a retirada de direitos, particularmente na Grécia, Espanha, Portugal e Itália. Nesses e em outros países aumenta os protestos e o questionamento às medidas tomadas por inúmeros governos. Na Itália, observe-se que nas recentes eleições parlamentares, tanto a coligação da direita, liderada por Silvio Berlusconi, quanto à coligação de centro, chefiada por Píer Luigi Bersani, assim como a coalizão que prega um repúdio à política institucional, capitaneada por Beppe Grillo, não conseguirão sozinhas formar um governo. A lição mais importante a se tirar dessa disputa é que quando a esquerda não se coloca, cresce a antipolítica, com danosas consequências para a democracia e a luta de classes.

3.           Nos EUA, a reeleição de Obama não representa qualquer alteração significativa nos rumos daquele país. Evidentemente, existem diferenças entre Obama e o candidato republicano derrotado, Mitt Romney. Este estaria mais disposto a aventuras militares e impermeável à manutenção de determinadas políticas sociais de que o país precisa. Porém, a política externa de Obama segue determinada a proteger os interesses do complexo industrial-militar-petroleiro em qualquer região do mundo onde ele pretenda se impor, razão pela qual a retórica do Departamento de Estado estadunidense segue pautada pela defesa da “democracia” nos países do Oriente Médio, o que significa o apoio a regimes autoritários (com destaque para o estado racista de Israel) e ataques aos governos “não alinhados” a seus interesses, como o Irã.

4.           No Oriente Médio e no norte da África, a “primavera árabe” vive ainda momentos de indefinição. A eleição de partidos pouco comprometidos com as transformações exigidas pelo movimento de massas no Egito e Tunísia criou impasses insolúveis. O recente assassinato de Chokri Belaid, líder da oposição socialista tunisiana, aprofundou a crise na qual se encontra o governo. No Egito, a escalada autoritário de Mohamed Mursi tem feito com que parcelas cada vez mais expressivas da população peçam a renúncia do presidente. As eleições parlamentares, que ocorrerão entre abril e junho, serão um importante momento para aferir a força da oposição laica e progressista ao governo da Irmandade Muçulmana. É importante destacar, assim, que na chamada Primavera Árabe, o alardeado horizontalismo de movimentos que não teriam líderes, organização ou “burocracia”, em alguns casos também não contava com teoria, tática ou estratégia. Assim, um formidável impulso de mudança se estiolou à falta de uma organização partidária transformadora.

5.           Na Síria, a escalada de violência tomou o caráter de Guerra Civil. O governo, com suas milícias e bombardeios a alvos civis (com destaque para o recente bombardeio à universidade de Damasco) goza de cada vez menos apoio internacional. Em contrapartida, a oposição ao regime – longe de ser composta por “revolucionários” – encontra-se completamente comprometida com forças estrangeiras pró-imperialistas e nega-se ao diálogo proposto pelo governo. Longe de um desfecho, a guerra civil tende a aprofundar-se e a saída de uma paz negociada parece cada vez mais longe.

6.           No nosso continente, agravam-se as contradições entre as forças progressistas e o imperialismo. As incertezas acerca do estado de saúde do presidente venezuelano, Hugo Chávez Frías, e as repercussões de um possível afastamento colocam novos desafios que o povo venezuelano terá de resolver. Naquele país, após duas contundentes vitórias eleitorais das forças revolucionárias, a direita busca fomentar uma crise, especulando com a doença do presidente Chávez. O PSOL reafirma seu apoio militante à Revolução Bolivariana, seus avanços e aprofundamento, e ao mesmo tempo, faz votos pela plena recuperação do comandante Hugo Chávez Frías.

7.           Na Bolívia, a estatização dos aeroportos – na contramão do quem tem sido feito no Brasil pelo governo Dilma – marca uma necessária ofensiva das forças populares contra os interesses monopolistas, bem como as eleições no Equador, que levaram à esmagadora vitória de Rafael Correa, e que também ocorrem num contexto de aumento da polarização com o imperialismo. Lá, a mídia monopolista trabalhou incansavelmente contra o presidente equatoriano, não obstante seus limites e contradições. No Paraguai e em Honduras, as eleições nesse ano ocorrerão também sob esse contexto. Por isso, é tarefa do PSOL reforçar seus laços de solidariedade com todos os processos de enfrentamento ao neoliberalismo e ao imperialismo, sobretudo na América Latina, nosso terreno privilegiado de ação, aumentando seu protagonismo e ativismo no cenário internacional em defesa de uma alternativa democrática, popular e socialista para o continente.

Brasil
8.         Nesse ano também se completam dez anos da experiência do PT à frente do Governo Federal. Na maior parte desse tempo, o PSOL buscou construir uma alternativa de oposição programática e de esquerda ao projeto de conciliação de classes liderado pela cúpula do petismo, denunciando as medidas conservadoras implementadas por seu governo, combatendo nas ruas e no parlamento em defesa dos interesses populares e fortalecendo as lutas sociais em todo o país através da defesa de um programa democrático, popular e socialista.

9.         Nos seu décimo ano, o governo petista encontra um cenário de incertezas no plano econômico que deve, mais uma vez, impedir um crescimento mais expressivo da economia. Ao mesmo tempo, a desindustrialização é visível, apesar dos esforços do governo (sobretudo a partir da redução do preço da energia elétrica) de impedir a diminuição do investimento privado. Para alavancar um crescimento das medíocres taxas do PIB dos dois primeiros anos de governo – ocorridas pela opção oficial de elevar a taxa de juros cinco vezes seguidas em 2005 e por reduzir o investimento público, o governo retoma a privatização de portos, aeroportos, rodovias e ferrovias. Isso representa voltar aos tempos dos governos tucanos na condução da política macroeconômica. Assim, o modelo econômico brasileiro mostra suas limitações e fragilidades, dependendo cada vez mais das grandes obras de infraestrutura (hidrelétricas, rodovias, estádios de futebol, etc.), do agronegócio e das privatizações para manter sua dinâmica de crescimento.

10.       Ao mesmo tempo, ainda que limitados, os ganhos observados juntos aos setores mais vulneráveis da população asseguram elevadas taxas de aprovação ao governo. O aumento do salário mínimo, a ampliação do consumo através de uma enxurrada de crédito, além da queda no desemprego (ainda que inferior ao demonstrado pelos dados oficiais) tem garantido uma sensação de relativo bem-estar junto a uma parte das camadas populares, blindando o governo de críticas mais estruturais. Ainda que os indicadores oficiais revelem números revoltantes – como o ainda elevado percentual de analfabetos, de trabalhadores fora do sistema de seguridade social ou de jovens excluídos do ensino superior, bem como os dados que demonstram a concentração de terras no campo ou o lucro extraordinário de banqueiros e outros rentistas do sistema financeiro – o governo segue gozando de altas taxas de aprovação.

11.       Mesmo a corrupção, problema que se revelou endêmico a partir do padrão de governabilidade operado pela direção do PT (indo desde a compra de votos até a promoção de políticas historicamente combatidas pelo próprio partido) não tem sido, por si só, suficiente para abrir um espaço maior de crítica ao governo. Apesar dos esforços de parte da mídia monopolista, os sucessivos escândalos não têm atingido profundamente a credibilidade da presidente e sua equipe.

12.       A própria crise da oposição conservadora, incapaz tanto de se diferenciar quanto de apoiar abertamente aquelas medidas que, no fundo, tem inspiração numa agenda neoliberal, demonstra a complexidade do arranjo político-institucional construído pelo PT. O enfraquecimento do bloco demo-tucano é a expressão mais clara do sucesso dos esforços da direção petista em incorporar a maioria do campo conservador ao seu projeto. Hoje, a maior parte dos partidos da velha direita brasileira compõe o governo Dilma. A entrada do PSD e seus 51 deputados na base de apoio ao governo é a mais recente demonstração desse fenômeno. Com ele, se fortalece no interior do bloco que governa o país as frações vinculadas ao agronegócio, dentre outros setores do capital. A tática do governo segue uma velha cartilha: levar para dentro do seu bloco de sustentação as contradições que outrora estavam dispersas na sociedade. O recente anúncio de investimentos na casa dos R$ 600 milhões para a pequena produção rural é, assim, um contraponto aos dados que comprovam o aumento da concentração de terras e da força dos grupos vinculados ao latifúndio no interior do governo.

13.       A eleição de Renan Calheiros para a presidência do Senado e de Henrique Eduardo Alves, ambos do PMDB, também serve para demonstrar até onde o governo está disposto a chegar para manter seu controle sobre as demais instituições. Apesar de acusados por diversos crimes, a candidatura de ambos foi encampada pelo governo e a maioria de sua base de apoio. Nesse processo, inúmeros parlamentares do PSDB também incorporaram a defesa das candidaturas governistas, demonstrando uma total incapacidade de ocupar o espaço oferecido à oposição conservadora nos meios de comunicação. Aproveitando essa brecha, o PSOL soube polarizar tanto no Senado, com o companheiro Randolfe Rodrigues, quanto na Câmara, com o companheiro Chico Alencar. Nessa disputa, apresentamos uma plataforma que defendia uma Reforma Política radical que aprofundasse a participação popular, defendendo a independência do legislativo em relação ao governo federal, o fim do voto secreto, a punição e cassação de todos os parlamentares envolvidos em denúncias de corrupção, e um parlamento ético e transparente.

14.       Assim, o ano de 2013 se anuncia como mais intenso, com o provável aumento de greves e manifestações. O PSOL recomenda a seus militantes e setoriais um engajamento ainda maior nas lutas do povo e esforço redobrado no sentido da unificação das lutas e superação dos entraves organizativos – notadamente no setor sindical – que ainda bloqueiam o livre desenvolvimento da luta popular. Temos importantes iniciativas partidárias unitárias em curso, sendo a mais importante delas, a luta pela anulação da Reforma da Previdência de 2003, impulsionada recentemente pela Ação Direta da Inconstitucionalidade (ADIN) movida pelo PSOL e tramitando no Supremo Tribunal Federal (STF). É dever de nossa militância fortalecer essa campanha ao lado das entidades dos servidores públicos federais e demais movimentos organizados em torno do tema.

2014
15.       Nesse cenário, a mídia monopolista especula qual poderia ser a alternativa capaz de se contrapor à propalada popularidade de Dilma Roussef nas eleições de 2014. Diante da crise no interior do PSDB, o nome de Aécio Neves, que parece contar com o apoio da maioria do partido, vem perdendo força. Sua atuação apagada no Senado Federal e os acordos firmados entre os tucanos e o governo naquela casa, impedem que Aécio possa se diferenciar. Ao mesmo tempo, o crescimento do PSB nas últimas eleições municipais coloca em evidência o nome do governador de Pernambuco, Eduardo Campos. As boas relações entre seu partido e o governo, porém, podem impedir momentaneamente sua candidatura, adiando suas pretensões para as eleições de 2018, ainda que setores conservadores enxerguem nele uma alternativa capaz de dividir a base de apoio do governo.

16.       Enquanto isso, a promessa de um partido liderado por Marina Silva esta prestes a se tornar realidade. Amparando-se nos 18 milhões de votos conquistados por ela nas últimas eleições presidenciais, após inúmeras negativas o novo partido deve buscar sua viabilização. A nova legenda unirá parlamentares de diferentes partidos (do PSDB ao PT), lideranças ambientais e populares, grandes empresários e caciques políticos de diferentes estados. Propondo-se um espaço amplo, capaz de unir posições tão conflitantes, o novo partido não terá um perfil de esquerda. Sofrerá as tensões de conviver com indivíduos progressistas e lideranças conservadoras e será incapaz de encarnar uma alternativa popular de enfrentamento os dez anos de lulo-petismo. Enfim, tende a amparar-se no discurso da ética, da sustentabilidade e da “nova política” sem, contudo, contrapor-se ao projeto do bloco dominante. Já se apresenta como um partido ideologicamente invertebrado, sem programa de mudanças estruturais, com uma posição ideológica indefinida (um partido de “centro radical”, como definiu um de seus idealizadores, Alfredo Syrkys). Mesmo sem apresentar qualquer disposição de enfrentar as injustiças sociais e o poder dos grandes monopólios, tentará aproveitar a fadiga causada pela polarização entre PT e PSDB para se fortalecer.

17.       Porém, para se apresentar em oposição à hegemonia conservadora, um partido necessita de inserção social, firmeza de princípios, militância política engajada nas lutas do povo e horizonte socialista. O PSOL hoje reúne as condições para ocupar esse espaço à esquerda e construir uma alternativa real à polarização formal PT x PSDB. Para isso, caberá a ele apresentar candidatura própria às eleições de 2014. O acúmulo que o partido traz das lutas sociais e de uma atuação consequente no parlamento já foi recentemente demonstrado nas eleições municipais de 2012. O crescimento de 96% no número de vereadores e a eleição de nossos primeiros prefeitos (sendo um deles em uma capital, Macapá), além das vitoriosas campanhas no Rio de Janeiro, Belém, Florianópolis, Fortaleza, dentre outras, mostram que estamos preparados para ocupar um espaço de destaque na disputa presidencial com nome próprio do PSOL.

18.       A criação de novas legendas é um direito e lutaremos sempre para que todos possam usufruí-lo, combatendo especialmente as manobras que buscam liquidar os partidos combativos, como a cláusula de barreira. Mas o lugar dos socialistas nesse momento da história brasileira é o PSOL. Nesses quase oito anos de existência, nosso partido tem se afirmado como referência de uma esquerda classista, ética, combativa e programática. Estivemos presentes nas principais lutas contra a corrupção, as medidas antipopulares como o reforma do Código Florestal ou a construção da Usina de Belo Monte, e apoiando os trabalhadores e a juventude em suas lutas por salário digno e educação de qualidade. Apoiamos as experiências progressistas em nosso continente e denunciamos firmemente o imperialismo. Enfim, demos mostras suficientes de que o projeto do PSOL está comprometido com a luta popular e o socialismo. Por isso, é tarefa de todo militante de nosso partido fortalecê-lo ainda mais. Estamos unidos em torno desse objetivo. Nossas figuras públicas, dirigentes e militantes devem dedicar-se à tarefa de reafirmar que o PSOL é a melhor alternativa da esquerda socialista para apresentar uma saída ao falso consenso liberal.

19.       Ademais, combateremos aqueles que quiserem transformar o PSOL numa correia de transmissão de outros projetos e não aceitaremos que lideranças falem em nome do PSOL para fortalecer outras alternativas partidárias. Atuaremos de forma firme na proteção do patrimônio político construído coletivamente nos últimos oito anos, garantindo que as estruturas partidárias não sejam utilizadas para minar a sua própria existência. Reconhecemos o direito daqueles que queiram abandonar a construção do PSOL, mas tal comportamento deve ser explícito e construído fora dos espaços do partido. O compromisso de nossa Direção Nacional é com o fortalecimento do PSOL.

20.       O lançamento da candidatura Dilma em ato promovido pelo PT, o discurso de Aécio no Senado, as declarações de Eduardo Campos e a definição do projeto Marina precipitaram a corrida eleitoral de 2014. Diante disto, o PSOL reafirma que terá candidatura própria, defendendo um programa anticapitalista de norte socialista em defesa dos trabalhadores e do povo em oposição ao governo atual. Nesse sentido, está aberto no interior do partido o debate sobre um programa alternativo e de esquerda para o Brasil.
 

Fonte: Do site do PSOL Nacional - Leonor Costa

domingo, 3 de março de 2013

Roda Punk: a Legitimidade do Rock e a Legitimidade da Política.



Fotos de Thercles Silva.
Ontem fui para o “Grito Rock”, um festival que começou sexta e vai até o sábado (03/03). Na ida para a Praça Antenor Navarro, onde acontece o evento, eu ainda estava um pouco chateado (triste e/ou decepcionado, não sei ao certo) com o “fogo amigo” que derramava calunia na internet e não respondia aos questionamentos mais que legítimos feitos em um espaço restrito de dirigentes; felizmente o rock permitiu que eu ganhasse minha noite e escrevesse as próximas linhas já bem tranquilo e certo dos caminhos a percorrer.

Um dos primeiros shows que assisti ontem foi da banda “Gata Preta”, os jovens cantavam clássicos do Rock nacional, a exemplo de “Aluga-se”, de Raul Seixas, e músicas autorais, das quais uma em especial chamou minha atenção. No mesmo espaço que ocorria o show da “Gata Preta” uma roda punk tentava se formar de maneira muito frágil, tanto que se desfez ainda nos primeiros giros; ao contrário da roda que girava de forma massiva a quilômetros por hora em outro espaço cultural do Varadouro. Aqui eu matei a charada... “Roda Punk: a Legitimidade do Rock e a Legitimidade da Política”.

No Rock não tem meio termo: ou você tem legitimidade para tocar e aglutinar seu público, ou seguirá sempre tocando para seus vizinhos, mesmo que eles não gostem. Na roda punk é a mesma coisa, não existe metade de uma roda, ou ela aglutina ou se desfaz.

Na política a legitimidade nem sempre é considerada, nem todos/as que fazem política (ou pensam que faz) tem legitimidade para tal; até mesmo porque, diferente dos clássicos do Rock, os giros políticos muitas vezes são “incompreensíveis”. Claro que o ser ou não legítimo não fica atrelado ao que acreditamos, do contrário, bastaria discordar para dizer não ser legítimo o reconhecimento de fulano ou beltrano. Contundo, existe quem “não cole” e tenha seu reconhecimento bem limitado e/ou relacionado seja: ao dinheiro, a determinado apoio político, por uma candidatura (mesmo quando não emplaca), ou simplesmente pela utilidade.

Sou fundador do PSOL e já vi algumas pessoas passarem pelo Partido querendo mudar o seu perfil (do partido), felizmente temos claro nosso estatuto e programa, assim como temos dirigentes que percebem de imediato os casos de quem ingressa com objetivos meramente individuais ou desvirtuados dos nossos princípios. Em minha curta jornada já vi gente saindo ao perceber que o PSOL tem prumo certo (de esquerda, socialista e não sectário); da mesma forma vi gente sendo convidada a sair e sendo colocada para fora por não seguir os princípios partidários, o PSOL tem lado, o lado dos/as trabalhadores/as.

Os acordos políticos também são legítimos, mas assim como as boas parcerias no mundo do Rock é preciso ter princípios claros e saber até que ponto uma articulação é tática ou estratégica. Já fiz parte uma chapa de DCE com quase 10 correntes e partidos diferentes em nome de uma disputa contra a direita clássica (PSDB, PMDB e PFL), ganhamos antes de abrir as urnas (1998); da mesma forma participei da eleição do CRESS/PB com um grupo tão unitário que não tivemos necessidade de rebaixar o programa em nome de uma possível articulação, neste caso ganhamos de um grupo que tinha entre seus componentes seis cargos comissionados do primeiro e segundo escalão do Governo do Estado da Paraíba e da Prefeitura de João Pessoa (2011). Aqui limito ao exemplo de uma das primeiras eleições que participei e da mais recente, ninguém constrói legitimidade política com factóides e sem riscos pessoais e coletivos.

Quem não sabe tocar Rock é facilmente identificado, na política pode demorar um pouco, mas sem legitimidade social o “cantor” é facilmente identificado.