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domingo, 25 de novembro de 2012

Desafogando a Saudade.



Não acredito em coincidência, mas isso não significa que eu tenha alguma crença em uma vida pautada em um destino que nos obriga a viver sem possibilidade de mudança; acredito nas pessoas e no potencial que elas possuem para fazer um novo mundo.

Esses dias, fiquei pensando que relação poderia haver no fato de Luiz Gonzaga e Raul Seixas, ambos nordestinos e respeitadores de suas raízes, morrerem no mesmo mês do mesmo ano – agosto de 1989; mais ainda, ambos vinham de um ressurgimento para o público, o primeiro ao lado de seu filho (Gonzaguinha), caminhando o Brasil em shows memoráveis, e Raulzito, fazendo dezenas de apresentações com o disco Panela do Diabo; para não alongar essas linhas, termino o parágrafo lembrando que Raul morreu com a idade que morreria Gonzaguinha dois anos depois.

Esses três homens (Gonzagão, Raul e Gonzaguinha), que politicamente seguiam caminhos bem diferentes, um conservador, outro anarquista e, o terceiro, um comunista, não esperaram o destino, fizeram história, a deles e a nossa!

Na verdade, eu não ia escrever nada sobre essas figuras fantásticas, fiz apenas pelo fato de acabar de ler uma matéria do Brasil de Fato sobre o filme “Gonzaga de pai para filho” e por Raul ser parte do meu cotidiano; pensava apenas em compartilhar um pouco dos meus pensamentos sobre a importância de fazer escolhas em nossas vidas, de ter liberdade material e subjetiva para decidir nossos destinos.

Apesar de já estarmos no quinto parágrafo, eu poderia começar esse texto agora, falando da forma como minha mãe, viúva com aproximadamente 20 anos de idade, saiu do sertão do Ceará e nos levou para seguir nossas vidas na capital de Pernambuco; se assim fizesse, seguiria falando sobre o mesmo tema que venho tentando desenvolver, a escolha dos nossos caminhos. Não é fácil ir direto ao ponto, vou pausar perto dos meus 20 anos, quando fui dividir apartamento com um amigo muito querido.

Quando saí de casa, não foi por rebeldia ou pelo fato de minha mãe não deixar isso ou aquilo, na verdade, fiz por morarmos (eu, minha mãe e dois irmãos) em um quarto e sala e eu sentir que todos/as precisávamos de mais espaço. No momento que decidi a mudança, minha mãe recebeu a notícia com uma naturalidade incrível, claro que falou dos cuidados e disse que na hora que eu precisasse era só voltar. A forma respeitosa como a mãe sempre tratou minhas decisões (mesmo quando discordava/discorda) foi fundamental para segurança que tenho nos caminhos trilhados para minha vida; apenas anos depois fiquei sabendo o quanto ela sentiu minha saída.

Luar é bem mais precoce que eu, aos 10 anos conversou com a mãe dela e disse que queria morar comigo e Áurea, depois disso ela veio apenas nos comunicar. Aos 11 anos, já morando conosco em João Pessoa, ela resolveu (agora em outubro) abrir o coração do tamanho da saudade que sentia da mãe e que queria voltar para Recife; eu sei o que é esse sentimento e não poderia deixar de construir as possibilidades para concretização de sua decisão.

Essa semana, ao avisar para o motorista da Van que não renovaríamos a matrícula, deu um nó na garganta que ainda não consegui engolir. Espero que minha filha seja uma mulher segura, capaz de tomar suas decisões sem submissão a seja qual for a esfera de poder; direi sempre minha opinião (favorável ou contrária), respeitarei sua decisão e estarei perto para comemorar ou consolar, não quero ser daqueles que dizem “eu te disse”; quem sabe, no futuro, eu não conte do verdadeiro tamanho da saudade que já estou sentindo.

“Não pare na pista
É muito cedo
Prá você se acostumar
Amor não desista
Se você pára
O carro pode te pegar”

Raul Seixas
“Oh! que saudade do luar da minha terra
Lá na terra branquejando folhas secas pelo chão
Este luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade do luar lá do sertão”

Luíz Gonzaga
“Eu vou cantar... Por aí
Que nada se repete sob o sol
O movimento da vida não deixa que a vida seja sempre
igual
Pois nada se repete, nem o sol”

Gonzaguinha


Termino com mais um escrito do fundo do baú (lá dos meus 28 anos)...

Distância da Minha Princesa

Parece que estou milhões de quilômetros de distância da Princesa Luar
O vazio invade minha vida
A saudade invade meu coração
A agoniar de não resolver essa distância consome meus dias
Suas lágrimas ao telefone trazem lágrimas aos meus olhos
Quatro aninhos sofrendo por saudade
Chorando ao ouvir música e ver a foto do papai
A tristeza de não resolver essa questão aperta meu coração
Como eu queria, neste momento, cotar estórias para dormir
Acariciar os cachos de minha princesa
Ouvir sua voizinha completar as páginas da nossa estória
Ouvir sua voizinha pedindo para eu fazer a barba
Ouvir sua voizinha declarando um amor do tamanho do sol e da lua
Queria ter todos os dias ao seu lado
Sentindo seu perfume
Levando para escola
Buscando na escola
Fazendo sua comida
Ouvindo você dizer que o almoço do papai é o mais gostoso
Como eu adoraria saber o rosto de cada amiguinho que você conta o nome
Perguntar à sua professora, ao vivo e a cores, como foi seu dia
Ver cada nova letra aprendida
Ouvir cada nova palavra pronunciada
Ver cada desenho feito para um pai tão perto e tão distante
Como é difícil voltar a dormir
Imaginar suas lágrimas por minha causa
Imaginar ser um nada em certos momentos
Será que tenho culpa de tudo isso acontecer?
Acredito, e espero, que não
Mas a confiança que a Princesa Luar tem em seu papai é gigante
Algo ele tem que descobrir
Alguma solução ele tem que arrumar
Pena o castelo de outras poesias não mais existir
Pena minha fantasia de castelos não ter adiantado
Pena aos 28 anos fraquejar
Como dói saber que existe dor e agonia maior que a de um coração apaixonado
Como dói ver aos 28 anos o mundo da fantasia despencar
Como dói aos 28 anos descobrir não conseguir fazer sempre a alegria de minha princesa
Por mais que eu tente guinar esse poema não consigo
Queria conseguir transformá-lo na alegria de amar e ser amado pela princesa Luar

(Tárcio Teixeira – aos 28 anos)

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